A França face à mudança — Entre Descartes e Deshimaru
« Penso, logo existo. »
— René Descartes (1637)
« Sente-se. Tudo o resto vem por si só. »
— Taisen Deshimaru (~1970)
As duas França
Há duas França. Coexistem há séculos sem nunca se reconciliarem, e sua tensão é um dos mais poderosos motores da cultura francesa.
A primeira França é cartesiana. É a França da razão, da análise, da dúvida metódica. Descartes estabelece os fundamentos: só podemos ter certeza do que podemos demonstrar. O mundo é uma máquina. O pensamento é o único refúgio seguro. Esta França produziu o Iluminismo, a Revolução, os direitos humanos, a laicidade, as grandes escolas, a tecnocracia. Ela controla. Ela planeja. Ela constrói barragens no rio da mudança.
A segunda França é mística. É a França das catedrais, de Mestre Eckhart pregando em língua vernácula, de Pascal e sua aposta, de Simone Weil de joelhos em uma igreja, de milhões de franceses que praticam ioga, meditação, Zen. Esta França não controla — acolhe. Ela não planeja — escuta. Ela não constrói barragens — deixa-se levar pela corrente.
O Yi King é a possível reconciliação das duas França. É um sistema — cartesiano em sua estrutura (64 hexagramas, 384 traços, uma lógica binária perfeita). E é um oráculo — místico em sua prática (coloca-se uma pergunta à mudança e escuta-se a resposta com humildade).
Philastre: o primeiro passador
Paul-Louis-Félix Philastre (1837-1902) é uma figura quase esquecida da história intelectual francesa. Oficial da marinha, diplomata, administrador colonial na Indochina, foi o primeiro Ocidental a traduzir integralmente o Yi King para uma língua europeia.
Sua tradução — Os Anais da Filosofia Cristã, depois publicação separada em 1885-1893 — é monumental. Dois volumes, mais de mil páginas. Philastre não traduz apenas os hexagramas e os traços — traduz também os comentários clássicos, as glosas, as interpretações tradicionais. É um trabalho de beneditino, realizado nas bibliotecas de Saigon e Huê, com a ajuda de letrados vietnamitas que dominavam os clássicos chineses.
A tradução Philastre é árdua, às vezes hermética. Não tem a fluidez poética de Wilhelm. Mas tem um mérito imenso: a anterioridade. Philastre traduziu o Yi King quarenta anos antes de Wilhelm. A França foi o primeiro país ocidental a receber o Livro das Transformações em sua língua.
É um fato que os franceses ignoram quase totalmente. Conhecem-se Champollion e os hieróglifos. Não se conhece Philastre e os hexagramas. E no entanto, o gesto é comparável: decifrar um sistema de pensamento radicalmente estrangeiro e torná-lo acessível ao Ocidente.
Deshimaru: o Zen toma raízes
Em 1967, um monge japonês de 53 anos desembarca em Paris. Taisen Deshimaru não falava uma palavra de francês. Quase não tinha dinheiro. Usava um kesa e um zafu. Seu projeto: implantar o Zen na Europa.
Todos teriam apostado contra ele. A França dos anos 60 é marxista, existencialista, estruturalista — tudo menos zen. E no entanto, em poucos anos, Deshimaru consegue o improvável. Os dojos se multiplicam — Paris, depois a província, depois a Europa. A Associação Zen Internacional é fundada em 1970. O templo de Gendronnière abre em 1979 no Vale do Loire. Ao morrer em 1982, deixa atrás de si mais de cem dojos e milhares de praticantes.
Como? Porque Deshimaru não tentou convencer os franceses pela razão. Ele lhes disse: « Sente-se. » Só isso. Sem sermão, sem doutrina, sem conversão. Apenas: sente-se neste almofada e não se mexa. O resto virá.
É exatamente a abordagem do Yi King. Não se « compreende » o Yi King intelectualmente — pratica-se. Lançam-se as moedas, lê-se o hexagrama, medita-se sobre ele. A sabedoria não vem da análise mas da experiência direta.
Hoje, a França é o país europeu com mais praticantes zen. Não é coincidência. A França mística — a de Pascal, das catedrais, dos eremitas — esperava por Deshimaru há séculos. Apenas precisava que alguém lhe dissesse: você não precisa pensar. Você precisa se sentar.
O Eclesiastes e o hexagrama
A França é um país cristão — culturalmente, mesmo para aqueles que não acreditam mais. E o livro bíblico que mais ressoa com o Yi King é o Eclesiastes: « Há tempo para tudo, tempo para cada coisa sob o céu. »
Os franceses que descobrem o Yi King frequentemente ficam impressionados com este paralelo. Não é um livro pagão, esotérico ou « oriental » no sentido exótico do termo. É um livro de sabedoria que diz a mesma coisa que o Eclesiastes: o mundo gira, as estações passam, a sabedoria é reconhecer o momento justo.
O Yi King não pede para crer em nada. Não pede para abandonar a fé, as convicções ou a razão. Pede apenas para fazer uma pergunta com sinceridade e escutar a resposta com atenção. É um ato de discernimento — uma palavra que os jesuítas franceses teriam perfeitamente compreendido.
Marie-Noëlle Doublet e a voz francesa do Yi King
A tradução utilizada por VirtualIChing em francês é a de Marie-Noëlle Doublet, PhD — « Melhor viver com o Yi King ». É uma tradução ancorada no desenvolvimento pessoal, acessível, viva. Não a erudição intimidante de Philastre, não a profundidade germânica de Wilhelm — uma voz francesa contemporânea que fala ao leitor de hoje.
É importante. O Yi King, para tocar o público francês, deve falar francês — não em tradução-do-chinês-via-alemão-via-inglês, mas em um francês direto, claro, que respeita a tradição sem embalsamá-la. Doublet oferece isso. É uma porta de entrada para os franceses que nunca ouviram falar do Yi King e que nunca lerão Philastre.
O terroir da sabedoria
A França tem uma palavra que as outras línguas lhe invejam: terroir. O vinho é bom não porque a casta é boa, mas porque o solo, o clima, a exposição, a história da parcela estão certos. A mesma casta plantada em outro lugar não dá o mesmo vinho.
O Yi King, plantado no terroir francês, deu um vinho particular. Não o mesmo que na China, não o mesmo que na Alemanha ou no Japão. Um Yi King que dialoga com Descartes e Pascal, com o Eclesiastes e Deshimaru, com a razão e a intuição. Um Yi King francês — rigoroso na forma, aberto no coração.
É isso que VirtualIChing propõe: um Yi King que fala todas as línguas, mas que nunca esquece que foi acolhido na França antes de qualquer outro país ocidental. Philastre foi o primeiro passador. Doublet é a voz de hoje. E entre os dois, há 140 anos de diálogo entre a França e o Livro das Transformações.
« O coração tem razões que a razão desconhece. »
— Blaise Pascal
O Yi King é a razão do coração.
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