História

Confúcio e as Dez Asas

Por MN Doublet, PhD — autora de Mieux vivre avec le Yi King — 21 março 2026 — Leitura: 8 min

Por volta do ano 500 a.C., um homem de 68 anos contemplava as tábuas de bambu que continham o Yi King e pronunciou uma frase que a história conservou: «Se me fossem dados mais alguns anos de vida, dedicaria cinquenta ao estudo do Yi, e então talvez evitasse grandes erros.»

Esse homem era Confúcio (孔子, Kǒng Zǐ, 551-479 a.C.) — o pensador mais influente da história chinesa. E essa frase revela algo notável: mesmo ao final de uma vida inteira dedicada à sabedoria, o maior filósofo da China considerava que não havia terminado de compreender o Yi King.

Do oráculo à filosofia

Antes de Confúcio, o Yi King era essencialmente um manual de adivinhação. Os textos do rei Wen e do duque de Zhou forneciam julgamentos e textos de linha, mas sem explicação, sem arcabouço filosófico, sem ponte entre o oracular e o ético.

Confúcio realizou uma operação intelectual radical: tomou um instrumento de adivinhação e transformou-o num tratado de filosofia moral. Não rejeitou a dimensão oracular — superou-a.

As Dez Asas (十翼, Shí Yì)

A tradição atribui a Confúcio a redação de dez textos comentários, chamados as Dez Asas (十翼), que dão ao Yi King sua envergadura filosófica. Chamam-se «asas» porque fazem o texto original voar — elevam-no do terreno da adivinhação ao céu da filosofia.

Esses dez textos são:

O Grande Comentário: a obra-prima

O Xi Ci Zhuan é considerado o texto filosófico mais importante das Dez Asas. É ali que encontramos as reflexões mais profundas sobre a natureza da mudança:

«Um yin, um yang: isso é o Tao.»
— Xi Ci Zhuan, Grande Comentário

Numa frase de seis caracteres, Confúcio (ou sua escola) captura a essência do Yi King: o universo é um jogo perpétuo entre duas forças complementares.

A sequência dos hexagramas

O Xu Gua Zhuan revela a lógica narrativa da ordem dos 64 hexagramas. Cada hexagrama leva ao seguinte por uma necessidade interna:

«Depois que os seres são criados, é preciso alimentá-los» (hexagrama 5, A Espera, segue o hexagrama 4, A Insensatez juvenil).

Confúcio realmente escreveu as Dez Asas?

A questão da autoria é debatida. Os sinólogos modernos pensam que as Dez Asas são mais provavelmente a obra da escola confuciana ao longo de vários séculos (do V ao III a.C.), e não do próprio Confúcio. Mas isso não diminui em nada sua importância.

O Yi King como clássico confuciano

Graças às Dez Asas, o Yi King foi elevado ao posto de primeiro clássico confuciano. Tornou-se matéria obrigatória dos exames imperiais. Durante mais de dois mil anos, todo funcionário chinês devia dominar os 64 hexagramas. O oráculo se tornara o pilar intelectual de toda uma civilização.

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