Como o Yi King conquistou o Ocidente
Durante mais de dois mil anos, o Yi King foi um segredo chinês. Os 64 hexagramas circulavam entre letrados, funcionários e monges — mas não saíam das fronteiras do império. Então chegaram os jesuítas.
Os jesuítas: primeiro contato (século XVII)
Os primeiros europeus a estudar seriamente o Yi King foram os missionários jesuítas destacados na China durante o século XVII. Homens como Matteo Ricci (1552-1610) e Joachim Bouvet (1656-1730) aprenderam chinês clássico e descobriram os clássicos confucianos.
Bouvet, em particular, ficou fascinado pelos hexagramas. Em sua correspondência com Leibniz, apresentou-lhe o sistema binário do Yi King — linhas inteiras (yang, 1) e linhas partidas (yin, 0). Leibniz reconheceu nele uma confirmação de seu próprio trabalho sobre o sistema binário, a base de toda a informática moderna.
«O que é mais espantoso neste cálculo é esta aritmética de Fuxi que tem vários milhares de anos [...] que concorda perfeitamente com minha nova aritmética.»
— Gottfried Wilhelm Leibniz, carta de 15 de abril de 1703
Legge: a erudição britânica (1882)
James Legge (1815-1897), sinólogo escocês e primeiro professor de chinês na Universidade de Oxford, publicou a primeira tradução acadêmica completa do Yi King para o inglês em 1882. Rigoroso e literal — mas de difícil acesso para o público geral.
Philastre: o oficial francês (1885)
Paul-Louis-Félix Philastre (1837-1902), oficial naval francês e administrador colonial na Indochina, publicou a primeira tradução completa em francês. Autodidata em sinologia, sua tradução é de erudição notável.
Richard Wilhelm: a revolução (1923)
O verdadeiro ponto de virada ocorreu em 1923, quando o sinólogo alemão Richard Wilhelm (1873-1930) publicou sua tradução para o alemão. Wilhelm viveu na China por mais de vinte anos e estudou com Lao Nai-xuan, um erudito confuciano da velha escola.
Mas o que realmente fez explodir o Yi King no Ocidente foi o prólogo de Carl Gustav Jung na edição inglesa de 1950.
Jung e a sincronicidade
Jung usou o Yi King para ilustrar seu conceito de sincronicidade: um princípio de conexão significativa não causal.
«A sincronicidade considera que os acontecimentos estão ligados pelo sentido, não pela causa.»
— Carl Gustav Jung
A associação Jung-Wilhelm catapultou o Yi King além dos círculos sinológicos. Tornou-se objeto de interesse para psicólogos, artistas, escritores, músicos.
A contracultura: o Yi King se populariza
Nas décadas de 1960 e 1970, o Yi King se tornou um dos textos emblemáticos da contracultura ocidental. John Cage compunha música baseada em tiragens do I Ching. Philip K. Dick utilizou-o como motor narrativo em O Homem do Castelo Alto. Bob Dylan, George Harrison e toda uma geração o consultavam.
A era digital: Virtual I-Ching (1999)
Em 1999, Virtual I-Ching se tornou um dos primeiros sites a propor uma consulta autêntica do Yi King online. Hoje, com a inteligência artificial MING, quatro traduções eruditas e um gerador quântico certificado, a era digital oferece algo que nem os jesuítas, nem Wilhelm, nem Jung teriam podido imaginar.
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